terça-feira, 1 de outubro de 2019

Um reflexão sobre ser mulher a partir da leitura do livro "Mulheres que correm com os lobos"


“Os lobos saudáveis e as mulheres saudáveis têm certas características psíquicas em comum: percepção aguçada, espírito brincalhão e uma elevada capacidade para a devoção. Os lobos e as mulheres são gregários por natureza, curiosos, dotados de grande resistência e força. São profundamente intuitivos e têm grande preocupação para com seus filhotes, seu parceiro e sua matilha. Tem experiência em se adaptar a circunstâncias em constante mutação. Têm uma determinação feroz e extrema coragem." (pág. 7)


Esse trecho é do livro “mulheres que correm com lobos”, da Clarissa Pinkola Estes. Há algum tempo me debruço sobre ele sempre que ando às voltas sobre questionamentos do feminino. Traz considerações extremamente interessantes sobre o arquétipo feminino. Dentro do mundo acadêmico da psicologia, sempre fui mais voltada à análise do comportamento e não à psicologia junguiana, que estuda mais fortemente a questão dos arquétipos. Entretanto, na minha vida profissional tentei sempre buscar a abertura e tentar relacionar outros assuntos à visão de mundo e de homem da Análise do Comportamento. Afinal, já disse Skinner: “não aceite a verdade eterna, experimente”. A vida de uma questionadora, curiosa e metida a pesquisadora perpassa pelas coisas novas que as reflexões nos convidam.
E eis que mais recentemente, diante de algumas questões que estão acontecendo na minha vida pessoal e profissional, deparei-me novamente com a leitura desse livro e a reflexão do ser mulher. O que é ser mulher? Talvez aqui cada uma de nós responda a essa forma de um modo diferente. Algumas podem trazer questões relacionadas a uma feminilidade tradicional. Outras, podem refletir que se trata de força e superação diária frente aos preconceitos enfrentados diariamente em nossa sociedade. Mas nesses diferentes discursos, não há nada que possamos encontrar de comum? A forma como cada uma de nós encontra de ser mulher não traz uma questão comum?


Nesses momentos eu gosto sempre de me lançar à história. Historicamente, nós mulheres sempre tivemos uma certa orientação social de como deveríamos nos portar. Afinal de contas, o que eram as revistas dos anos 50 sobre como a mulher deveria tratar o marido ou cuidar da casa de uma determinada forma? Houve sempre uma certa orientação para que estivéssemos à sombra ou à margem de uma sociedade. Mas nem todas as mulheres comportaram-se assim. Debruçando-se sobre a história de diversas áreas é sempre possível encontrar mulheres que se dedicavam a fazer trabalhos que eram, em sua maioria, ocupados por homens. No nascimento de novas perspectivas, como a química ou a física moderna, a psicologia enquanto ciência, o cinema, a arte, sempre, se buscarmos, vamos encontrar nomes femininos no meio de tantos nomes masculinos. Houve tentativas de silenciamento delas? Claro. Mas elas resistiram. E hoje são resgatadas pelo movimento feminista como forma de dar visibilidade.

Talvez seja esse um denominador em comum diante de tantos diferentes discursos sobre o que é ser mulher. A resistência. Clarissa Estes fala isso ao refletir sobre a mulher selvagem, ao dizer que uma das características presentes na mulher e no lobo é a resistência e a força. Ao usar o termo mulher selvagem, a autora reflete ainda que essas palavras refletem o significado de tocar o instrumento do nome para abrir uma porta. Abrir passagem. E é isso que nós mulheres fizemos e continuamos a fazer. Abrir passagens.

sábado, 27 de julho de 2019


“A gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu? (...)

“No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...”

Essa música do Chico me transporta para tantos lugares e tantas situações diferentes, que não há como encontrar um significado fácil dela para minha vida. Mas ela sempre traz uma ideia de quebra de ciclos. E na quebra de ciclos, há sempre recomeços.
Talvez muitos não entendam a minha eterna necessidade de se lançar em busca de algo novo e melhor, porém incerto para minha vida. Talvez muitos não entendam por que eu não cumpro ou pelo menos tento não cumprir a receita e permanecer em uma vida “ok” e relativamente estável. Conversando com uma amiga sobre isso, ao dizer que as vezes pensava que estava fazendo uma loucura, ela me disse: "e você não se acostumou ainda que É louca? Vai e faz teu rumo". 
 Mas talvez muitos consigam perceber o que eu digo. Depois de um tempo em um país novo, você encontra, se aproxima e faz amizades com seus iguais, os imigrantes e que vieram em busca de algo melhor. Não é fácil sair de um país, sair de sua terra, de sua origem. Todos têm muitos motivos para isso. Alguns são bem parecidos. Outros nem tanto. Mas em geral todos vêm em busca de algo que há algum tempo o Brasil não tem: qualidade de vida. Também eu vim. E encontrei.

Mas ao mesmo tempo que encontro qualidade de vida, encontro também a dificuldade de arriscar o novo. E como todo recomeço, como toda aprendizagem, há as quedas, há a angústia. Esses dias eu vi uma criança caindo de bicicleta na rua e chorando. O pai tentava consolar a criança e a incentivava a tentar novamente. Ao meu lado, um amigo português riu e disse: ah, ainda vai cair bastante. Eu observei e comentei: ele ainda está aprendendo. E ele: Sim, mas para aprender ainda vai cair muito, então tem que se levantar para aprender novamente. Era apenas uma criança “a aprender” andar de bicicleta. Mas automaticamente eu fiquei pensando na minha angústia que tinha levado ao convite de sair com ele para conversar: dificuldades de adaptação no país, dúvidas do que fazer, decisões a serem tomadas.

Também eu estou aprendendo novas habilidades: de como desenrascar-me em Portugal. Como viver em Portugal? Há muitas possibilidades. E eu estou procurando a minha. E se tenho a sensação de que estou fazendo tudo que posso, muitas vezes também tenho a sensação de que algumas coisas parecem não andar. Daí a sensação de que a vida estancou. Mas há sempre a outra possibilidade: não terá sido o mundo que cresceu?

Ironicamente, Portugal é bem menor em extensão e população que o Brasil. Mas mudar é aprender um mundo completamente novo. E ah, meu mundo cresceu muito desde que vim para cá. São apenas 7 meses de Portugal. Mas são sete meses de expansão de ideias e de possibilidades. São sete meses de permitir-se reinventar para aprender o que esse mundo tem a me apresentar.
Bom, então, vamos levantar para aprender as novas habilidades que preciso para viver cá. Desejem-me capacidade para recomeçar quantas vezes for preciso, porque recomeçar parece ser o verbo mais presente na nossa vida.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Inquietações que acompanham imigrantes ou Triste, louca e Má?

Esse texto eu escrevi antes de vir pra Portugal. Resolvi revisá-lo e escrever um pouco mais para postar como forma de reacender minha inspiração para escrita, não necessariamente do blog, mas da minha tese de doutorado, que está passando por um inverno de duas semanas sem uma letrinha escrita.

Triste, louca ou má?

Têm sido dias reflexivos. E essa música me acompanha nas reflexões. Seria mentira dizer que essas reflexões iniciaram após a tão esperada decisão da minha licença e de uma passagem comprada. Ah, essas reflexões estão comigo há algum tempo, talvez desde o início desse doutorado. É bem verdade que elas ganharam força nesse ano, mas sempre me acompanharam. Uma pergunta que tenho comigo e que sempre me traz emoções diversas é: por que tão inquieta? Por que sempre em busca de algo novo e que me move? Por que sempre tão questionadora?

Não sei, mas o sou. Não aceito respostas prontas sem que eu tenha questionado e refletido nela. Talvez nem as que eu mesma tenha pensado como resposta. Estou sempre a questionar-me e a pensar se aquilo que já pensei pra mim é de fato o melhor caminho. Sou uma alma inquieta. E mais uma vez a alma inquieta se lança sozinha. Arriscar começar ou recomeçar. Não digo que deixo tudo pra trás, porque o que é meu, continuará sendo meu nessa transição. Há uma segurança nesse meu lançar-me que antes não havia. Quando mais nova, simplesmente ia. Até porque não havia nada conquistado. Hoje, minhas conquistas estão comigo e eu não as abandono, mas as deixo guardadas para iniciar um novo caminho. No trajeto eu hei de saber se estou ganhando experiências e conquistas para juntar às que eu já tenho guardadas ou se é de fato um novo caminho. Mas e não são sempre novos? Quando voltar, se voltar, já não serei a mesma, disso tenho certeza.

Mas se por um lado admiro, como os outros falam, a minha coragem e a minha vontade de ir, de me lançar, de “arriscar caminho errado pela alegria de viver”, por outro, volto eu a não ter tanta compaixão comigo mesma e a me olhar com olhos e julgamentos sociais que aos poucos fui absorvendo. Triste, louca ou má por não seguir a receita cultural? Não sigo. E não que eu tenha o direito de julgar quem segue alguma. As pessoas têm desejos diferentes e encontram sua felicidade de forma diferente. Eu mesma, já encontrei a minha “seguindo” tal receita. E sinceramente? Já passei da fase de cuspir no prato que comi. Foi bom e tive momentos muito felizes. No fim, não há receita. Não precisamos ser todas desatinadas e seguirmos sozinhas. No nosso desatino, há sempre alguém que pode estar junto, que pode estar disposto a seguir caminhos semelhantes e a lutar um pelo outro. O que não podemos fazer, no fim, é fingir que tudo está bem e nos acomodarmos com o que não está. E, bom, aqui não estava tão bom, por diversos motivos. Vamos lá, traçar novos caminhos. Queimar o mapa, traçar novos caminhos, se reinventar. “Um homem não me define. Minha casa não me define. Minha carne não me define. Eu sou meu próprio lar.”



Ninguém sabe o que será, de verdade, mas sei que terão anjos pelo caminho, que também respondem ao nome de primos. E que eu também vou cuidar um pouco deles. Porque no caminho, o que vale mesmo desatinar e andar caminho errado é quem está do nosso lado, nos apoiando de alguma forma. Nós somos lar uns pros outros.


 E hoje, 4 meses depois que cheguei, fazendo algo para comer, escutei novamente a música que me inspirou a escrever esse texto. E lembrei dele. Reli, me emocionei e tenho algumas coisas a dizer.
Queimar o mapa e traçar de novo a estrada requer coragem e é dolorido. Mas tenho pra mim que sempre vale a pena. Se algo não está bom, podemos mudar. Se acomodar ao que incomoda é dolorido também, mas é uma dor que é sentida em conta gotas e o corpo vai se acostumando, afinal, o ser humano se acostuma até com o que é ruim de uma forma impressionante. Há um nome científico pra esse processo: chama-se habituação. Mesmo para situações aversivas, a magnitude da resposta de esquiva ou fuga do estímulo pode diminuir a depender do estímulo e da repetição dele. Um exemplo que facilita a compreensão é: barulhos constantes deixam de irritar ou mesmo deixam de ser perceptíveis com o passar do tempo.
Já mudar o que incomoda é algo que requer lutar contra um incômodo e um processo de habituação. Requer encarar o desconhecido que pode gerar empolgação, mas também gera ansiedade, medo e desconforto. E, quem tem mais de 30 ou perto disso, sabe do que estou falando. Aos 20 ou antes disso aparentemente tudo que é novo lhe parece bom. Depois de algumas experiências dolorosas na vida, o medo do desconhecido aumenta. Talvez por isso tenha escrito esse texto logo antes de vir. O medo e a ansiedade estavam aqui. O que me esperava em Portugal? Hoje, com quatro meses aqui, eu penso que o que me esperou aqui foi mais ou menos o que a gente já sabe da vida e já foi traduzido em palavras por Guimarães Rosa:  “esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta e o que ela quer da gente é coragem”. A vida em Portugal pode não ser um mar de rosas, mas é uma vida tranquila e que apaixona facilmente quem gosta de natureza e tranquilidade. Ou até tem muitas rosas, mas como em todas elas, tem alguns espinhos.



4 meses depois: Ainda bem que eu estava ansiosa. Afinal, é sinal de que ainda tenho medo do desconhecido e não sou tão louca quanto me julgam. Mas ainda bem que não me acomodei ao que incomodava: cada dia que passa, mesmo com toda a saudade e problemas, eu tenho mais certeza da escolha que fiz. E eu estava bem certa sobre os anjos que também respondem como primos. Tão certa que adicionei primos e anjos a essa conta.





quinta-feira, 18 de abril de 2019

As saudades que imigrantes têm


"Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu... a gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu? A gente vai contra a corrente, até não poder resistir. Na volta do barco é que sente o quanto deixou de cumprir."
  

Saudades de imigrantes têm um outro sabor. Tem uma outra dor. Tem um outro sentido. As saudades de morar longe de casa, de amigos e da família eu já tinha e já sentia. Já havia me acostumado um pouco a ter saudades e a lidar com ela. Marcava-se uma passagem nos feriados e aproveitava-se o bom de um lado e de outro. Sabíamos-nos próximos o suficiente para resolver pequenas coisas. 

Mas a saudade de se ter um oceano inteiro de distâncias, ah, essa é amarga. Há dias em que ela quase não existe. Há dias que você só percebe as coisas boas de estar longe do seu país. Há dias em que você quase não lembra. Mas há dias que a saudade vem e atravessa a sua alma. Nesses dias, não há muito o que fazer a não ser se aquietar, ter boas companhias e respeitar seus sentimentos e seu corpo. Não há como fugir. Nesses dias cada um tem a receita do que fazer. Eu, por vezes, fecho portas e janelas e me escondo em uma caverna. Bebo um bom vinho e como as boas comidas que Portugal me oferece. Noutros, continuo meu caminho, meus estudos ou minhas tentativas, vou correr, escuto música. Aparentemente feliz e animada. Mas a saudade continua ali, ardendo. As músicas fazem as lágrimas escorrer. 


Ao olhar fotos antigas hoje eu lembrei do calor que senti no dia da foto, tive até mesmo a sensação de tê-lo novamente, mas apenas por instantes, pois na doce tarde primaveril de 15 graus não há como sentir muito calor. Logo após, o frio sentido não é mais de 15 graus, é um frio na alma. E nesse momento eu senti falta do suor do calor brasileiro. Aquela gota de suor que escorre pela pele em uma caminhada curta. Explico: não, eu não gosto desse suor e da sensação de estar suada. Ou ao menos não gostava. Ela incomodava muito. Ou "imenso" como os portugueses gostam de dizer. Tinha vontade de jogar água gelada em mim a todo instante. Mas hoje, hoje eu senti falta dessa gotinha de suor pingando. 


Não era a gota, mas o que ela representava. O calor de estar de novo com brasileiros amigos, o calor de estar novamente com os meus, com a minha cultura. O calor da nossa fala, do nosso jeito de falar e pensar, o calor do Brasil. Ao falar isso pra algumas pessoas, sempre há as reflexões sobre não valer a pena voltar. Sei disso, e ah, como sei. Não, não quero voltar. Sentir saudades de um lugar não significa querer voltar a morar novamente lá. Quero continuar aqui, mesmo no frio, mesmo com alguns preconceitos tugas, alguns olhares tortos ao meu sotaque. Gosto muito daqui. Adapto-me fácil a um lugar em que posso andar e correr na rua sem medo, que posso ter árvores e gramas por perto. 



E bem, uma parte minha já tinha ficado aqui: a minha família zuca que agora também é meio tuga. E aí, mesmo nos momentos que posso querer chorar sozinha, isso já não é muito possível, porque sempre tem um abraço por perto, um áudio, um convite pra uma série ou um filme, um prato com um lanche ou uma sobremesa.  E assim vamos seguindo, cuidando uns dos outros. Há dias que o vinho terá apenas um gosto pra aplacar as lágrimas. Como há dias em que ele vai ter o gosto maravilhoso do vinho tuga. Entre esses dias, permanecemos aqui, tentando traçar nosso caminho, mesmo que a roda-viva em algum momento nos leve pra outros lugares ou saudades.


quinta-feira, 11 de abril de 2019

Corações partidos e marcas a adquirir



Li em algum lugar agora há pouco que corações seriamente quebrados nunca são completamente recuperados, assim como alguns ossos do corpo quebrado que nunca mais serão os mesmos, mas as pessoas vivem suas vidas sem lembrar deles, lembrando apenas em alguns movimentos que agora são diferentes. Como partes de corpo com algumas dores e inflamações crônicas, que podem voltar a doer no tempo frio ou com alguns movimentos repetitivos.
Na verdade, não somos mais os mesmos depois de algumas experiências. Coração partido é apenas uma delas. Mas também não somos mais os mesmos depois de morar sozinhos. Não somos mais os mesmos depois de fazer um curso interessante e que nos fez refletir sobre muita coisa. Como também não somos mais os mesmos depois de uma experiência religiosa. As pessoas que são mães e pais também afirmam que após o serem também nunca mais serão os mesmos, independente de como estejam os filhos.

Estamos em constante movimento. E na iminência da mudança das estações, árvores mudam completamente de um dia pro outro. E algumas levam marcas antigas em seus troncos. Mas continuam ali, florescendo na primavera e perdendo suas folhas no outono, permanecendo desfolhadas em um tempo de resistência, mas também permanecendo floridas enquanto o tempo lhe permitir.
E aí, independente de não sermos mais os mesmos, de levarmos marcas que nos acompanharão, viveremos novamente e passaremos por outras situações. Algumas nos farão lembrar outras. Outras, serão completamente diferentes e nos farão ter outras marcas. Algumas podem não ser tão profundas. A verdade é que aprendemos a lidar de diferentes formas às experiências. Aprendemos a reconhecer algumas situações e alguns sinais. Minha mãe e minha avó costumavam dizer que sinal de chuvas longas eram formigas com asa ou mosquitos. Já Luiz Gonzaga foi um pouco mais poeta e lembrou das flores de mandacaru que antecedem as chuvas no sertão. De onde eu vim era assim, mas aqui em Portugal já não sei reconhecer sinais que antecedem as grandes chuvas e não lembro de ter visto uma só formiga ou mosquito anunciando chuvas no inverno. Posso passar tempos sem ver formigas com asas. Mas no dia que vê-las, vou lembrar e procurar outros sinais que pareçam com as situações que antecedem as grandes chuvas no Nordeste Brasileiro. 


Quem já passou por experiências dolorosas aprende a ver alguns sinais e a evitar algumas situações. Já dizia outra frase da minha mãe e da minha avó: gato escaldado tem medo de água fria. É verdade que não podemos deixar o medo nos paralisar. Não é porque tive uma ou algumas situações ruins que todas as outras serão assim. Ou serão boas por algum tempo. E quando começar a fazer mal é hora de perceber os sinais que antecedem coisas ruins. É possível que ainda fiquem dores. E tudo bem senti-las novamente. Saber reconhecer alguns sinais de algo doloroso não nos torna insensíveis a elas. E que bom que não. A dor é importante pra nos avisar que há algo errado e que é preciso cuidar.



quinta-feira, 7 de março de 2019

As estações, o inverno e o tornar-se primavera

É a primeira vez que vejo e acompanho a mudança de estações. É meu primeiro inverno. Será minha primeira primavera. Antes disso, cheguei a passar alguns dias viajando no que eu chamei de fria primavera chilena e argentina. Mas essa é de fato a primeira vez que acompanho as estações. E o mais bonito que estou achando: a mudança delas. Períodos quentes de um fim de inverno, novas tempestades e as primeiras folhas e flores nascendo: “Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais.” Ao mesmo tempo que o inverno se despede, a primavera vai nascendo e vai mostrando sua beleza.
As arvores têm me ensinado a resistência do tronco. É necessário perder as folhas pra resistir aos períodos de vento forte, chuva, frio e ausência, ou pelo menos fraca presença da fonte do seu alimento, o sol. Perdem-se as folhas, fica um tronco nu, com aparência não tão admirada. Eu, por mim, talvez porque nunca tivesse visto de tão perto, vi a beleza de estarem assim, nus, sem folhas, mas essencialmente árvores. A árvore não deixa de ser árvore por estar sem folhas. Talvez fiquem mais parecidas entre si, nos deixando com dificuldades de perceber suas diferenças e sua espécie de folha, rosas ou frutos, mas continuam árvores.



Esses últimos dias de inverno, que têm sido mais frios e com vento forte, me ensinaram outra coisa sobre a resistência das árvores no inverno. Em uma noite com um vento que chegou a uivar na janela, pensei e comentei com uma amiga: a impressão que tenho é que amanhã não restará uma árvore em pé. Na verdade, sem exageros, cheguei mesmo a ter medo e imaginei que no outro dia visse algumas árvores caídas. No outro dia, vi uma tímida claridade por entre as frestas da janela e a abri. Uma tímida luz do sol tentava lutar entre nuvens que ainda pareciam espessas de chuva. O vento tinha diminuído. E, ao olhar pras árvores, a surpresa não foi apenas encontra-las, mas vê-las com mais folhas nascendo e com coloração mais verde. Algumas, com flores tímidas, como se viessem saudar o sol. E resolvi observar: a verdade é que nesse mês de março, todo dia as árvores me parecem mais verdes. Todo dia, tenho a impressão de ter visto novas flores.  Quase sempre tenho ido caminhar ou correr mesmo no frio. E já vinha acompanhando o nascer de folhinhas tímidas, em um tom verde-claro que vão se tornando maiores e com tom de verde mais escuro. E nesses dias tenho lembrado de Cecília Meireles: “aprendi com a primavera a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.” E pensei que talvez fosse isso que as árvores vieram me ensinar: deixaram-se cortar pra resistir a períodos de vento forte, chuva e escassez de sol e calor para voltarem inteiras e vistosas na primavera.


Guimarães Rosa já tinha me ensinado que “o correr da vida embrulha tudo (...) esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta e o que ela quer da gente é coragem”. E aí penso: há quanto tempo essas árvores cá estão aguentando esse esquentar e esfriar, esse apertar e afrouxar das estações do ano? Há quanto tempo essas árvores cá estão aguentando vento forte, chuva, frio e sol “fraco”? É possível que os primeiros tenham sido mais difíceis. Não sei. Elas não me contam essa parte ou ainda não as aprendi a observá-las tão bem a ponto de compreender seu passado.  Ou, talvez, sejam como algumas pessoas que por aqui já encontrei e que dizem que nunca vão se acostumar completamente a esse frio. Mas, fato é que a vida exige delas coragem e elas têm. E nos mostram isso.


E, por hora, o meu aprendizado esses dias de imigração/mudança de ares, de país, de atividades e de estações de ano é: é necessário deixar-se cortar pra resistir mais facilmente a períodos de inverno na alma. Deixar cortar sabores que já não são tão fáceis ou mesmo possíveis. Deixar perder presenças físicas. Deixar perder a voz e um sotaque ao qual estamos acostumados. Deixar perder, talvez, até pessoas que não consigam resistir ao afastamento. Deixar perder pra resistir. Deixar-se desnudar de sabores que até então considerava essenciais. E aprender a se ver em uma nova essência. Desconstrução e reconstrução. Pensando bem, eu já vivi outros invernos. Talvez não tão físicos. E a presença física dele nos faz ter certeza que é preciso coragem pra enfrenta-los. E quando a gente menos esperar, talvez nasça uma flor. Quem sabe um jardim.


Por hora, agradeço a Deus e ao Universo essa oportunidade. E mais ainda, agradeço a possibilidade de sentir mais forte uma espiritualidade necessária nesse inverno. Talvez a ausência de folhas e a resistência das árvores tenha me ensinado a reaprender a ver o que não pode ser visto com os olhos do corpo.  

terça-feira, 18 de abril de 2017

A Bela e a Fera e algumas reflexões sobre nós mesmos e nossos relacionamentos

Fui assistir ao filme “A bela e a fera” há algum tempo e pra ser bem sincera, já cheguei com alguns pensamentos à cabeça para possíveis problematizações: amo a história pois me remete à infância. Entretanto, a temática do filme de haver uma fera mantendo uma mulher maravilhosa prisioneira e que ela aos poucos se apaixona por ele e o ensina a amar me remete a uma cultura de que "a mulher deve ensinar o homem a amar e que a mulher modifica o homem." E é por conta dessa cultura que muitas mulheres se submetem a relacionamentos dolorosos e abusivos por anos. Remete, querendo ou não ao que mais recentemente se denominou síndrome de Estocolmo.
Mas durante o filme outra frase me chamou a atenção. A da Bela, a mesma que estaria apaixonada por uma fera respondendo a uma pergunta dela: “você seria feliz comigo todos os dias?” e ela responde: “pode alguém ser feliz sem ser livre?” E a fera a liberta pra que ela vá e depois, por vontade própria, volte.

Ela voltou porque via nele um afeto que não tinha experimentado ainda, mas também só volta porque ele a deixou livre, mesmo estando a um passo de uma maldição de nunca mais se tornar humano de novo. Ali a fera teria entendido que pra manter uma pessoa ao seu lado, deveria ser porque ela queria estar ali e não por meio de abusos. Mas pouco antes disso, a própria Bela tinha demonstrado a ele que por meio de abusos, ele não a teria da forma como queria. 



 Sim, é uma história romântica da Disney e sabemos que na vida real as coisas podem ser muito perigosas para aquelas que se propõem a ser “belas” e ensinarem “feras” a amar. Na maioria das vezes, as feras manipulam as belas e elas acabam entrando em relacionamentos abusivos. E, na verdade, ninguém sabe se a história dos dois depois não terminou em novos abusos. Como na maior parte dos contos infantis, só se mostra como se iniciou o relacionamento, mas não como ele continuou. Será mesmo que a fera, após voltar a ser humano não voltou a se comportar como antes e a exigir de Bela alguns comportamentos? Sabemos que na vida real, o “e foram felizes para sempre” nem sempre é tão feliz assim.
Pra além disso, parei para pensar no quanto muitas vezes somos Belas e Feras de nós mesmos. Somos “Belas”, ao tentarmos nos permitir, aceitar e até mesmo ensinar nosso lado “fera” a amar. E “feras” quando tentamos manter alguém do nosso lado por carências emocionais nossas e acabamos por emitir comportamentos de manipulação emocional. Somos “belas” quando tentamos crescer e conhecer o mundo pra além do que nos é mostrado, seja por meio de livros, viagens ou experiências novas. E somos feras quando assustamos as outras pessoas que se aproximam com agressividades quase que gratuitas. Somos belas quando exploramos o mundo ao nosso redor e não aceitamos as "verdades" absolutas dos outros ou regras sociais simplesmente por segui-las, sem nos questionar se aquilo nos faz ou não bem. Mas somos feras quando nos escondemos por trás de nossos erros e histórias anteriores culpando a si mesmos e os outros, sem tentar enxergar o que pode ser feito a partir de agora.

Talvez o nosso lado Fera tenha nascido de outras relações em que esse lado foi necessário se desenvolver para se proteger. Mas e quem disse que a Bela também não protege, luta, é forte, livre e ama? Afinal de contas, é ela quem salva seu pai por duas vezes e quem volta pra ajudar a Fera a se livrar de uma emboscada. Somos nossas próprias Belas e Feras. E entender quais dos nossos comportamentos estejam ligados à um lado Fera e como podemos deixar que eles possam ser modificados pelo lado Bela é um belo exercício de reflexão que a história pode trazer.