segunda-feira, 29 de abril de 2019

Xenofobia em Portugal? Zucas, tugas e a nem tão perfeita vida de imigrantes


Preconceito e discriminação de brasileiros em Portugal

Muitos dos textos e das fotos que mostram um pouco sobre a vida de muitos imigrantes que resolveram morar em Portugal ou outros lugares, na maioria das vezes, apresentam os aspectos bons de estar aqui. Afinal de contas, há muitos aspectos bons (e pra mim e pros outros imigrantes que conheço são a maioria), mas também há problemas. Ninguém é tão feliz na vida real como no instagram, não é? Afinal de contas, problemas de verdade a gente conta pros amigos ou pro psicólogo.  Resolvi escrever um pouco sobre alguns problemas porque essa foto me chegou pelo whatsapp em um grupo de psicólogos brasileiros em Portugal que participo e, de acordo com os relatos e com notícias em jornais, aconteceu na Universidade de Lisboa.



Traduzindo: zuca significa brazuca, de brasileiro. (Como tuga vem de portuga - portugueses). Na caixa havia pedras. Isso tem nome: xenofobia. Isso é comum? Não. Mas há preconceito contra brasileiro em Portugal? Há.  Até o momento (4 meses) eu tinha sofrido? Não dessa forma, mas já enfrentei o preconceito existente contra a “mulher brasileira” de que somos “fáceis” ou convites para sair vindos de homens comprometidos acompanhados da pecha “mas você é brasileira” diante de uma recusa minha.
Há uma diferença entre ser turista e ser imigrante sendo mulher brasileira em Portugal? Muita. Já tinha vindo pra Portugal passar um mês, um mês e meio por conta das disciplinas que fiz de modo intensivo no doutorado porque não havia conseguido a licença do trabalho ainda e a partir do momento em que passei a morar aqui e me apresentar dessa forma, senti uma diferença no tratamento. Raramente aconteceu de forma explícita, mas já senti que alguns portugueses me encaravam como se eu estivesse à “procura de um português” e algumas portuguesas como se eu estivesse “tentando roubar os homens” daqui. Na maioria das situações, como não foram muito explícitas, apenas não respondi, ri das impressões e segui adiante. A vontade era dar respostas desaforadas, principalmente aos homens, mas isso aconteceu muito mais em redes sociais e eu apenas bloqueei porque era mais saudável que permanecer discutindo com uma pessoa que tem esse pensamento.

Com relação a emprego há discriminações menos explícitas como “ah, mas você não tem experiência em Portugal”, ou ainda “ah, mas você é brasileira”, ou “ah, a seleção é pra Portugal, pra portugueses”, diante do currículo. Pessoas que eu conheço que já trabalham aqui e que vieram porque haviam passado em uma seleção de empresas portuguesas ainda morando no Brasil já escutaram outras frases como “ah, eu nem sabia que lá tinha gente trabalhando com tecnologia”. A resposta à frase foi excelente e pôde acontecer diante do contexto: “aqui que parece que não, já que estão chamando a gente”.
Quando vi essa foto, lembrei de uma situação que vivi enquanto cearense e nordestina tendo recém entrado no mestrado da Universidade de Brasília: “mas vocês se formaram no Nordeste pra passar no mestrado? Vocês estudavam como?” (faz-me rir, não é?)
 Nós, zucas, temos “invadido” Portugal em busca de melhor qualidade de vida e uma das formas que encontramos foi por meio dos estudos, entrando em Mestrados e Doutorados nas Universidades Portuguesas. Mas se nós passamos à frente dos portugueses em universidades do país deles, é porque somos competentes. Ou não? Na época do mestrado eu percebi a insatisfação de alguns que diziam que tínhamos “roubado as bolsas de estudo”. Eu apenas respondi: estudei com livros, com os mesmos que vocês. Nordeste não é só praia (ponto fraco pra brasiliense), mas a gente também pode ler os livros na praia." A resposta pros portugueses que estão se sentindo ameaçados pelas competências zucas vai nesse sentido: pedras pra gente porque nós estudamos mais que vocês? Desculpa, mas eu não vou me sentir mal porque estudei. Por outro lado, vocês deviam se sentir mal por não o fazerem.


Em tempo: a Universidade de Lisboa já se pronunciou sobre o caso. A direção do curso emitiu uma nota de repúdio e a reitoria da Universidade afirmou que pretende avançar em sanções disciplinares.

Sobre o caso:

https://observador.pt/2019/04/29/universidade-de-lisboa-abre-processo-disciplinar-em-caso-de-xenofobia-na-faculdade-de-direito/

https://www.publico.pt/2019/04/29/sociedade/noticia/acto-xenofobia-leva-protesto-estudantes-brasileiros-faculdade-direito-1870928

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Inquietações que acompanham imigrantes ou Triste, louca e Má?

Esse texto eu escrevi antes de vir pra Portugal. Resolvi revisá-lo e escrever um pouco mais para postar como forma de reacender minha inspiração para escrita, não necessariamente do blog, mas da minha tese de doutorado, que está passando por um inverno de duas semanas sem uma letrinha escrita.

Triste, louca ou má?

Têm sido dias reflexivos. E essa música me acompanha nas reflexões. Seria mentira dizer que essas reflexões iniciaram após a tão esperada decisão da minha licença e de uma passagem comprada. Ah, essas reflexões estão comigo há algum tempo, talvez desde o início desse doutorado. É bem verdade que elas ganharam força nesse ano, mas sempre me acompanharam. Uma pergunta que tenho comigo e que sempre me traz emoções diversas é: por que tão inquieta? Por que sempre em busca de algo novo e que me move? Por que sempre tão questionadora?

Não sei, mas o sou. Não aceito respostas prontas sem que eu tenha questionado e refletido nela. Talvez nem as que eu mesma tenha pensado como resposta. Estou sempre a questionar-me e a pensar se aquilo que já pensei pra mim é de fato o melhor caminho. Sou uma alma inquieta. E mais uma vez a alma inquieta se lança sozinha. Arriscar começar ou recomeçar. Não digo que deixo tudo pra trás, porque o que é meu, continuará sendo meu nessa transição. Há uma segurança nesse meu lançar-me que antes não havia. Quando mais nova, simplesmente ia. Até porque não havia nada conquistado. Hoje, minhas conquistas estão comigo e eu não as abandono, mas as deixo guardadas para iniciar um novo caminho. No trajeto eu hei de saber se estou ganhando experiências e conquistas para juntar às que eu já tenho guardadas ou se é de fato um novo caminho. Mas e não são sempre novos? Quando voltar, se voltar, já não serei a mesma, disso tenho certeza.

Mas se por um lado admiro, como os outros falam, a minha coragem e a minha vontade de ir, de me lançar, de “arriscar caminho errado pela alegria de viver”, por outro, volto eu a não ter tanta compaixão comigo mesma e a me olhar com olhos e julgamentos sociais que aos poucos fui absorvendo. Triste, louca ou má por não seguir a receita cultural? Não sigo. E não que eu tenha o direito de julgar quem segue alguma. As pessoas têm desejos diferentes e encontram sua felicidade de forma diferente. Eu mesma, já encontrei a minha “seguindo” tal receita. E sinceramente? Já passei da fase de cuspir no prato que comi. Foi bom e tive momentos muito felizes. No fim, não há receita. Não precisamos ser todas desatinadas e seguirmos sozinhas. No nosso desatino, há sempre alguém que pode estar junto, que pode estar disposto a seguir caminhos semelhantes e a lutar um pelo outro. O que não podemos fazer, no fim, é fingir que tudo está bem e nos acomodarmos com o que não está. E, bom, aqui não estava tão bom, por diversos motivos. Vamos lá, traçar novos caminhos. Queimar o mapa, traçar novos caminhos, se reinventar. “Um homem não me define. Minha casa não me define. Minha carne não me define. Eu sou meu próprio lar.”



Ninguém sabe o que será, de verdade, mas sei que terão anjos pelo caminho, que também respondem ao nome de primos. E que eu também vou cuidar um pouco deles. Porque no caminho, o que vale mesmo desatinar e andar caminho errado é quem está do nosso lado, nos apoiando de alguma forma. Nós somos lar uns pros outros.


 E hoje, 4 meses depois que cheguei, fazendo algo para comer, escutei novamente a música que me inspirou a escrever esse texto. E lembrei dele. Reli, me emocionei e tenho algumas coisas a dizer.
Queimar o mapa e traçar de novo a estrada requer coragem e é dolorido. Mas tenho pra mim que sempre vale a pena. Se algo não está bom, podemos mudar. Se acomodar ao que incomoda é dolorido também, mas é uma dor que é sentida em conta gotas e o corpo vai se acostumando, afinal, o ser humano se acostuma até com o que é ruim de uma forma impressionante. Há um nome científico pra esse processo: chama-se habituação. Mesmo para situações aversivas, a magnitude da resposta de esquiva ou fuga do estímulo pode diminuir a depender do estímulo e da repetição dele. Um exemplo que facilita a compreensão é: barulhos constantes deixam de irritar ou mesmo deixam de ser perceptíveis com o passar do tempo.
Já mudar o que incomoda é algo que requer lutar contra um incômodo e um processo de habituação. Requer encarar o desconhecido que pode gerar empolgação, mas também gera ansiedade, medo e desconforto. E, quem tem mais de 30 ou perto disso, sabe do que estou falando. Aos 20 ou antes disso aparentemente tudo que é novo lhe parece bom. Depois de algumas experiências dolorosas na vida, o medo do desconhecido aumenta. Talvez por isso tenha escrito esse texto logo antes de vir. O medo e a ansiedade estavam aqui. O que me esperava em Portugal? Hoje, com quatro meses aqui, eu penso que o que me esperou aqui foi mais ou menos o que a gente já sabe da vida e já foi traduzido em palavras por Guimarães Rosa:  “esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta e o que ela quer da gente é coragem”. A vida em Portugal pode não ser um mar de rosas, mas é uma vida tranquila e que apaixona facilmente quem gosta de natureza e tranquilidade. Ou até tem muitas rosas, mas como em todas elas, tem alguns espinhos.



4 meses depois: Ainda bem que eu estava ansiosa. Afinal, é sinal de que ainda tenho medo do desconhecido e não sou tão louca quanto me julgam. Mas ainda bem que não me acomodei ao que incomodava: cada dia que passa, mesmo com toda a saudade e problemas, eu tenho mais certeza da escolha que fiz. E eu estava bem certa sobre os anjos que também respondem como primos. Tão certa que adicionei primos e anjos a essa conta.





quinta-feira, 18 de abril de 2019

As saudades que imigrantes têm


"Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu... a gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu? A gente vai contra a corrente, até não poder resistir. Na volta do barco é que sente o quanto deixou de cumprir."
  

Saudades de imigrantes têm um outro sabor. Tem uma outra dor. Tem um outro sentido. As saudades de morar longe de casa, de amigos e da família eu já tinha e já sentia. Já havia me acostumado um pouco a ter saudades e a lidar com ela. Marcava-se uma passagem nos feriados e aproveitava-se o bom de um lado e de outro. Sabíamos-nos próximos o suficiente para resolver pequenas coisas. 

Mas a saudade de se ter um oceano inteiro de distâncias, ah, essa é amarga. Há dias em que ela quase não existe. Há dias que você só percebe as coisas boas de estar longe do seu país. Há dias em que você quase não lembra. Mas há dias que a saudade vem e atravessa a sua alma. Nesses dias, não há muito o que fazer a não ser se aquietar, ter boas companhias e respeitar seus sentimentos e seu corpo. Não há como fugir. Nesses dias cada um tem a receita do que fazer. Eu, por vezes, fecho portas e janelas e me escondo em uma caverna. Bebo um bom vinho e como as boas comidas que Portugal me oferece. Noutros, continuo meu caminho, meus estudos ou minhas tentativas, vou correr, escuto música. Aparentemente feliz e animada. Mas a saudade continua ali, ardendo. As músicas fazem as lágrimas escorrer. 


Ao olhar fotos antigas hoje eu lembrei do calor que senti no dia da foto, tive até mesmo a sensação de tê-lo novamente, mas apenas por instantes, pois na doce tarde primaveril de 15 graus não há como sentir muito calor. Logo após, o frio sentido não é mais de 15 graus, é um frio na alma. E nesse momento eu senti falta do suor do calor brasileiro. Aquela gota de suor que escorre pela pele em uma caminhada curta. Explico: não, eu não gosto desse suor e da sensação de estar suada. Ou ao menos não gostava. Ela incomodava muito. Ou "imenso" como os portugueses gostam de dizer. Tinha vontade de jogar água gelada em mim a todo instante. Mas hoje, hoje eu senti falta dessa gotinha de suor pingando. 


Não era a gota, mas o que ela representava. O calor de estar de novo com brasileiros amigos, o calor de estar novamente com os meus, com a minha cultura. O calor da nossa fala, do nosso jeito de falar e pensar, o calor do Brasil. Ao falar isso pra algumas pessoas, sempre há as reflexões sobre não valer a pena voltar. Sei disso, e ah, como sei. Não, não quero voltar. Sentir saudades de um lugar não significa querer voltar a morar novamente lá. Quero continuar aqui, mesmo no frio, mesmo com alguns preconceitos tugas, alguns olhares tortos ao meu sotaque. Gosto muito daqui. Adapto-me fácil a um lugar em que posso andar e correr na rua sem medo, que posso ter árvores e gramas por perto. 



E bem, uma parte minha já tinha ficado aqui: a minha família zuca que agora também é meio tuga. E aí, mesmo nos momentos que posso querer chorar sozinha, isso já não é muito possível, porque sempre tem um abraço por perto, um áudio, um convite pra uma série ou um filme, um prato com um lanche ou uma sobremesa.  E assim vamos seguindo, cuidando uns dos outros. Há dias que o vinho terá apenas um gosto pra aplacar as lágrimas. Como há dias em que ele vai ter o gosto maravilhoso do vinho tuga. Entre esses dias, permanecemos aqui, tentando traçar nosso caminho, mesmo que a roda-viva em algum momento nos leve pra outros lugares ou saudades.


quinta-feira, 11 de abril de 2019

Corações partidos e marcas a adquirir



Li em algum lugar agora há pouco que corações seriamente quebrados nunca são completamente recuperados, assim como alguns ossos do corpo quebrado que nunca mais serão os mesmos, mas as pessoas vivem suas vidas sem lembrar deles, lembrando apenas em alguns movimentos que agora são diferentes. Como partes de corpo com algumas dores e inflamações crônicas, que podem voltar a doer no tempo frio ou com alguns movimentos repetitivos.
Na verdade, não somos mais os mesmos depois de algumas experiências. Coração partido é apenas uma delas. Mas também não somos mais os mesmos depois de morar sozinhos. Não somos mais os mesmos depois de fazer um curso interessante e que nos fez refletir sobre muita coisa. Como também não somos mais os mesmos depois de uma experiência religiosa. As pessoas que são mães e pais também afirmam que após o serem também nunca mais serão os mesmos, independente de como estejam os filhos.

Estamos em constante movimento. E na iminência da mudança das estações, árvores mudam completamente de um dia pro outro. E algumas levam marcas antigas em seus troncos. Mas continuam ali, florescendo na primavera e perdendo suas folhas no outono, permanecendo desfolhadas em um tempo de resistência, mas também permanecendo floridas enquanto o tempo lhe permitir.
E aí, independente de não sermos mais os mesmos, de levarmos marcas que nos acompanharão, viveremos novamente e passaremos por outras situações. Algumas nos farão lembrar outras. Outras, serão completamente diferentes e nos farão ter outras marcas. Algumas podem não ser tão profundas. A verdade é que aprendemos a lidar de diferentes formas às experiências. Aprendemos a reconhecer algumas situações e alguns sinais. Minha mãe e minha avó costumavam dizer que sinal de chuvas longas eram formigas com asa ou mosquitos. Já Luiz Gonzaga foi um pouco mais poeta e lembrou das flores de mandacaru que antecedem as chuvas no sertão. De onde eu vim era assim, mas aqui em Portugal já não sei reconhecer sinais que antecedem as grandes chuvas e não lembro de ter visto uma só formiga ou mosquito anunciando chuvas no inverno. Posso passar tempos sem ver formigas com asas. Mas no dia que vê-las, vou lembrar e procurar outros sinais que pareçam com as situações que antecedem as grandes chuvas no Nordeste Brasileiro. 


Quem já passou por experiências dolorosas aprende a ver alguns sinais e a evitar algumas situações. Já dizia outra frase da minha mãe e da minha avó: gato escaldado tem medo de água fria. É verdade que não podemos deixar o medo nos paralisar. Não é porque tive uma ou algumas situações ruins que todas as outras serão assim. Ou serão boas por algum tempo. E quando começar a fazer mal é hora de perceber os sinais que antecedem coisas ruins. É possível que ainda fiquem dores. E tudo bem senti-las novamente. Saber reconhecer alguns sinais de algo doloroso não nos torna insensíveis a elas. E que bom que não. A dor é importante pra nos avisar que há algo errado e que é preciso cuidar.



quinta-feira, 7 de março de 2019

As estações, o inverno e o tornar-se primavera

É a primeira vez que vejo e acompanho a mudança de estações. É meu primeiro inverno. Será minha primeira primavera. Antes disso, cheguei a passar alguns dias viajando no que eu chamei de fria primavera chilena e argentina. Mas essa é de fato a primeira vez que acompanho as estações. E o mais bonito que estou achando: a mudança delas. Períodos quentes de um fim de inverno, novas tempestades e as primeiras folhas e flores nascendo: “Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais.” Ao mesmo tempo que o inverno se despede, a primavera vai nascendo e vai mostrando sua beleza.
As arvores têm me ensinado a resistência do tronco. É necessário perder as folhas pra resistir aos períodos de vento forte, chuva, frio e ausência, ou pelo menos fraca presença da fonte do seu alimento, o sol. Perdem-se as folhas, fica um tronco nu, com aparência não tão admirada. Eu, por mim, talvez porque nunca tivesse visto de tão perto, vi a beleza de estarem assim, nus, sem folhas, mas essencialmente árvores. A árvore não deixa de ser árvore por estar sem folhas. Talvez fiquem mais parecidas entre si, nos deixando com dificuldades de perceber suas diferenças e sua espécie de folha, rosas ou frutos, mas continuam árvores.



Esses últimos dias de inverno, que têm sido mais frios e com vento forte, me ensinaram outra coisa sobre a resistência das árvores no inverno. Em uma noite com um vento que chegou a uivar na janela, pensei e comentei com uma amiga: a impressão que tenho é que amanhã não restará uma árvore em pé. Na verdade, sem exageros, cheguei mesmo a ter medo e imaginei que no outro dia visse algumas árvores caídas. No outro dia, vi uma tímida claridade por entre as frestas da janela e a abri. Uma tímida luz do sol tentava lutar entre nuvens que ainda pareciam espessas de chuva. O vento tinha diminuído. E, ao olhar pras árvores, a surpresa não foi apenas encontra-las, mas vê-las com mais folhas nascendo e com coloração mais verde. Algumas, com flores tímidas, como se viessem saudar o sol. E resolvi observar: a verdade é que nesse mês de março, todo dia as árvores me parecem mais verdes. Todo dia, tenho a impressão de ter visto novas flores.  Quase sempre tenho ido caminhar ou correr mesmo no frio. E já vinha acompanhando o nascer de folhinhas tímidas, em um tom verde-claro que vão se tornando maiores e com tom de verde mais escuro. E nesses dias tenho lembrado de Cecília Meireles: “aprendi com a primavera a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.” E pensei que talvez fosse isso que as árvores vieram me ensinar: deixaram-se cortar pra resistir a períodos de vento forte, chuva e escassez de sol e calor para voltarem inteiras e vistosas na primavera.


Guimarães Rosa já tinha me ensinado que “o correr da vida embrulha tudo (...) esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta e o que ela quer da gente é coragem”. E aí penso: há quanto tempo essas árvores cá estão aguentando esse esquentar e esfriar, esse apertar e afrouxar das estações do ano? Há quanto tempo essas árvores cá estão aguentando vento forte, chuva, frio e sol “fraco”? É possível que os primeiros tenham sido mais difíceis. Não sei. Elas não me contam essa parte ou ainda não as aprendi a observá-las tão bem a ponto de compreender seu passado.  Ou, talvez, sejam como algumas pessoas que por aqui já encontrei e que dizem que nunca vão se acostumar completamente a esse frio. Mas, fato é que a vida exige delas coragem e elas têm. E nos mostram isso.


E, por hora, o meu aprendizado esses dias de imigração/mudança de ares, de país, de atividades e de estações de ano é: é necessário deixar-se cortar pra resistir mais facilmente a períodos de inverno na alma. Deixar cortar sabores que já não são tão fáceis ou mesmo possíveis. Deixar perder presenças físicas. Deixar perder a voz e um sotaque ao qual estamos acostumados. Deixar perder, talvez, até pessoas que não consigam resistir ao afastamento. Deixar perder pra resistir. Deixar-se desnudar de sabores que até então considerava essenciais. E aprender a se ver em uma nova essência. Desconstrução e reconstrução. Pensando bem, eu já vivi outros invernos. Talvez não tão físicos. E a presença física dele nos faz ter certeza que é preciso coragem pra enfrenta-los. E quando a gente menos esperar, talvez nasça uma flor. Quem sabe um jardim.


Por hora, agradeço a Deus e ao Universo essa oportunidade. E mais ainda, agradeço a possibilidade de sentir mais forte uma espiritualidade necessária nesse inverno. Talvez a ausência de folhas e a resistência das árvores tenha me ensinado a reaprender a ver o que não pode ser visto com os olhos do corpo.  

terça-feira, 18 de abril de 2017

A Bela e a Fera e algumas reflexões sobre nós mesmos e nossos relacionamentos

Fui assistir ao filme “A bela e a fera” há algum tempo e pra ser bem sincera, já cheguei com alguns pensamentos à cabeça para possíveis problematizações: amo a história pois me remete à infância. Entretanto, a temática do filme de haver uma fera mantendo uma mulher maravilhosa prisioneira e que ela aos poucos se apaixona por ele e o ensina a amar me remete a uma cultura de que "a mulher deve ensinar o homem a amar e que a mulher modifica o homem." E é por conta dessa cultura que muitas mulheres se submetem a relacionamentos dolorosos e abusivos por anos. Remete, querendo ou não ao que mais recentemente se denominou síndrome de Estocolmo.
Mas durante o filme outra frase me chamou a atenção. A da Bela, a mesma que estaria apaixonada por uma fera respondendo a uma pergunta dela: “você seria feliz comigo todos os dias?” e ela responde: “pode alguém ser feliz sem ser livre?” E a fera a liberta pra que ela vá e depois, por vontade própria, volte.

Ela voltou porque via nele um afeto que não tinha experimentado ainda, mas também só volta porque ele a deixou livre, mesmo estando a um passo de uma maldição de nunca mais se tornar humano de novo. Ali a fera teria entendido que pra manter uma pessoa ao seu lado, deveria ser porque ela queria estar ali e não por meio de abusos. Mas pouco antes disso, a própria Bela tinha demonstrado a ele que por meio de abusos, ele não a teria da forma como queria. 



 Sim, é uma história romântica da Disney e sabemos que na vida real as coisas podem ser muito perigosas para aquelas que se propõem a ser “belas” e ensinarem “feras” a amar. Na maioria das vezes, as feras manipulam as belas e elas acabam entrando em relacionamentos abusivos. E, na verdade, ninguém sabe se a história dos dois depois não terminou em novos abusos. Como na maior parte dos contos infantis, só se mostra como se iniciou o relacionamento, mas não como ele continuou. Será mesmo que a fera, após voltar a ser humano não voltou a se comportar como antes e a exigir de Bela alguns comportamentos? Sabemos que na vida real, o “e foram felizes para sempre” nem sempre é tão feliz assim.
Pra além disso, parei para pensar no quanto muitas vezes somos Belas e Feras de nós mesmos. Somos “Belas”, ao tentarmos nos permitir, aceitar e até mesmo ensinar nosso lado “fera” a amar. E “feras” quando tentamos manter alguém do nosso lado por carências emocionais nossas e acabamos por emitir comportamentos de manipulação emocional. Somos “belas” quando tentamos crescer e conhecer o mundo pra além do que nos é mostrado, seja por meio de livros, viagens ou experiências novas. E somos feras quando assustamos as outras pessoas que se aproximam com agressividades quase que gratuitas. Somos belas quando exploramos o mundo ao nosso redor e não aceitamos as "verdades" absolutas dos outros ou regras sociais simplesmente por segui-las, sem nos questionar se aquilo nos faz ou não bem. Mas somos feras quando nos escondemos por trás de nossos erros e histórias anteriores culpando a si mesmos e os outros, sem tentar enxergar o que pode ser feito a partir de agora.

Talvez o nosso lado Fera tenha nascido de outras relações em que esse lado foi necessário se desenvolver para se proteger. Mas e quem disse que a Bela também não protege, luta, é forte, livre e ama? Afinal de contas, é ela quem salva seu pai por duas vezes e quem volta pra ajudar a Fera a se livrar de uma emboscada. Somos nossas próprias Belas e Feras. E entender quais dos nossos comportamentos estejam ligados à um lado Fera e como podemos deixar que eles possam ser modificados pelo lado Bela é um belo exercício de reflexão que a história pode trazer.




segunda-feira, 6 de março de 2017

Nós mulheres e o 08 de Março.

Mulheres, temos um dia só nosso no ano para lembrar e comemorar os direitos conquistados. Os primeiros oitos de Março da história não ocorreram somente nessa data e não havia comemorações, mas sim manifestações de mulheres por condições de trabalho, rendimentos iguais aos dos homens, direito ao voto, entre outros direitos sociais. Após diversas manifestações marcadas pela violência contra as manifestantes e por um numero cada vez maior de mulheres nas ações realizadas, houve a conquista de alguns direitos e a instituição pela Organização das Nações Unidas (ONU) de um primeiro acordo internacional que afirmava os princípios de igualdade sociais entre homens e mulheres. Em 1975, com o fortalecimento do movimento feminista, comemorou-se o primeiro 08 de março, sendo reconhecido como o Dia Internacional da Mulher em 1977 pelas Nações Unidas.




Muito se foi conquistado. Hoje a Constituição Brasileira afirma que nós somos iguais perante a lei, sem distinção de sexo, cor, ou classe social. Nós nos formamos, fizemos pós-graduações, alcançamos prêmios nobeis, ganhamos títulos e conquistamos cargos de sucesso.  Entretanto, nossa realidade mostra que ainda temos muito a conquistar. Como o que, por exemplo?

O que você já deixou de fazer e não pôde, não conseguiu ou foi desestimulada pelo simples fato de ser mulher?



Andar sozinha? Fazer uma viagem? Dizer algo? Vestir uma determinada roupa? Praticar um esporte?

Quantas vezes você se sentiu amedrontada por estar sozinha na rua e ter um homem de olhando de uma maneira estranha? Quantas vezes você desejou que alguém te salvasse de um assédio?

Quantas vezes você se sentiu inferiorizada em um ambiente profissional ao se deparar com “piadas” e com comentários jocosos de que “são apenas piadas”?

A igualdade de fato ainda precisa ser conquistada. Continuemos lutando diariamente por isso. Permaneçamos juntas umas das outras, nos respeitemos e nos ajudemos no nosso dia a dia. Ainda tem luta, mas se estivermos juntas, conseguiremos. Somos mulheres. De onde viemos? Os nossos oitos de março foram de lutas. E onde estamos? Ainda há o que fazer? Sim, mas nós temos a capacidade de mudar o ambiente ao nosso redor. A história nos mostra isso. Vamos mudar juntas?